As chamadas “canetas para obesidade” ficaram conhecidas pela capacidade de promover perda significativa de peso, mas seu papel é mais amplo. Em entrevista ao programa “Roda Viva”, o endocrinologista Bruno Halpern explicou que esses medicamentos fazem parte do tratamento de uma doença crônica e são resultado de cerca de 40 anos de pesquisa. A primeira medicação da classe foi aprovada para diabetes há aproximadamente duas décadas.
Os medicamentos pertencem à classe dos agonistas do GLP-1, hormônio produzido naturalmente pelo intestino após as refeições. Enquanto a substância produzida pelo organismo é degradada em poucos minutos, as versões farmacológicas prolongam esse efeito, aumentando a sensação de saciedade. Segundo Halpern, isso reduz a fome e o chamado “ruído alimentar”, expressão usada para definir a preocupação constante com a comida. A tirzepatida também atua sobre o hormônio GIP, o que amplia a resposta ao tratamento.
De acordo com os dados apresentados pelo endocrinologista, a semaglutida proporciona perda média de cerca de 15% do peso corporal, podendo chegar a 20%. A tirzepatida alcança perda média próxima de 20%. Apesar desses resultados, Halpern ressaltou que o emagrecimento representa apenas uma etapa do tratamento. Os medicamentos também estão associados a benefícios cardiovasculares e à prevenção do diabetes tipo 2.
O especialista afirmou que compreender a obesidade ajuda a explicar por que o tratamento costuma ser contínuo. Segundo ele, a doença resulta da interação entre predisposição genética e um ambiente que favorece o sedentarismo e o consumo de alimentos ultraprocessados, conhecido como “ambiente obesogênico”. A genética responde por cerca de 70% da suscetibilidade à obesidade, principalmente por meio de genes ligados ao controle da fome.
Mesmo quando a perda de peso ocorre, o organismo tende a reagir. Halpern explicou que essa adaptação fisiológica reduz o gasto energético e aumenta os hormônios relacionados à fome, favorecendo a recuperação do peso após a interrupção da medicação. Por esse motivo, ele criticou a expressão “canetas emagrecedoras”, por considerar que ela transmite a ideia de um recurso voltado apenas ao emagrecimento rápido, quando o objetivo é controlar uma doença crônica.
O endocrinologista também apontou desafios para ampliar o uso desses medicamentos. Um deles é o acesso desigual, já que a obesidade cresce principalmente entre populações de baixa e média renda, enquanto os tratamentos permanecem concentrados entre pessoas com maior poder aquisitivo. Segundo ele, apenas cerca de 7% das pessoas com indicação para utilizar esses medicamentos nos Estados Unidos fazem o tratamento.
A limitação de acesso também favorece o mercado clandestino. Halpern alertou para os riscos de produtos falsificados ou contrabandeados e afirmou que farmácias de manipulação não devem substituir a produção em larga escala dos medicamentos de referência. Na avaliação do especialista, a ampliação da oferta de genéricos após o fim das patentes e a criação de políticas públicas podem ampliar o acesso ao tratamento com maior segurança.