Declarar para qual time se torce poderia aumentar a transparência no jornalismo esportivo. O público saberia qual é a relação daquele profissional com o clube envolvido e teria mais elementos para avaliar suas análises. Em alguns casos, porém, o efeito foi outro: a preferência deixou de ser apenas uma informação sobre o comentarista e passou a organizar sua leitura dos acontecimentos.
O clube para o qual se torce vira o ponto de referência. Uma decisão da arbitragem ou uma punição dificilmente são discutidas apenas pelo caso presente. A comparação com episódios envolvendo rivais aparece rapidamente e desloca a discussão. Em vez de avaliar o fato por seus próprios elementos, procura-se saber se algo semelhante já aconteceu com outro clube e qual foi o tratamento dado naquela ocasião. A pauta deixa de ser o fato e passa a ser a disputa entre torcidas.
Esse filtro também interfere na importância atribuída aos acontecimentos. Meu time ganhou ou perdeu. Foi beneficiado ou prejudicado. O que ocorre com os demais passa a ocupar um plano secundário. Em situações mais evidentes, o comentarista deixa de apenas analisar o clube e passa a defendê-lo. Erros são minimizados e decisões controversas ganham justificativas. Quando a crítica recai sobre alguém do próprio clube, surge com frequência a figura do profissional incompreendido ou avaliado de forma injusta. A função jornalística passa, então, a se misturar à de advogado ou relações-públicas.
Com isso, a fronteira entre narrar, comentar e torcer ficou menos nítida. Ter um clube faz parte da relação com o futebol, mas adotar essa preferência como critério de análise compromete a distância necessária ao trabalho jornalístico. A transparência deveria ajudar o público a reconhecer possíveis vieses, sem converter a rivalidade em princípio editorial. Quando a paixão clubística passa a comandar a cobertura, tudo vira arquibancada.